O amor que sinto,
não é quente nem frio,
não é forte nem fraco,
não é grande nem pequeno,
não é muito nem pouco,
tudo que me encanta,
tudo que me ilumina,
tudo que me tira o ar,
tudo que me faz sonhar,
é imensurável!
André Sobral
24/10/2009
24/10/2009
Amar tanto
30/09/2009
Ganhando tempo
O despertador havia falhado, a força do sol denunciou o óbvio, acordei atrasado, resolvi que não tomaria banho naquele dia, ganhei alguns minutos que seriam desperdiçados entre ensaboamentos e enxagues, na cozinha, abri a geladeira para encontrar o pouco de sempre, não tive tempo de passar no mercado ultimamente, fazer um sanduíche tomaria muito tempo, resolvi comer um pacote de biscoitos que estava aberto, fazer suco? Refrigerante, só beber, mais prático, vesti qualquer coisa, apressado, peguei a mochila, e saí, escovar meus dentes ficaria para depois, desci as escadas correndo, pulei o último lance de degraus, ignorei o porteiro para não desperdiçar preciosos segundos em um bom dia, aproveitei que o portão estava aberto para a passagem de um carro e corri através dele para não precisar abri-lo novamente, na rua o tráfego estava infernal, parei alguns segundos na calçada, medi a distância rapidamente, uma pequena brecha apareceu quando um ônibus que saia do ponto atrapalhou os motoristas, foi minha deixa, dei um pinote passando entre os carros à toda, mal cheguei no outro lado e vi meu ônibus virando a esquina, para não perder mais minutos no ponto, fui em uma carreira até o ponto e peguei o coletivo, mais uma enorme economia de minutos, impaciente observei cada parada no caminho, fiz questão de ficar à frente para descer mais rápido quando chegasse meu destino, pulei do ônibus quando as portas se abriram, pouco antes dele parar, me recuperando do pequeno desequilíbrio, me apressei ladeira à cima, ignorei minha sede e fui para a aula, perdi a presença pelo atraso, além da primeira impressão, são os primeiros minutos que ficam, saí para tirar cópias de textos durante a aula, assim economizo o tempo antes de ir embora, não conversei com ninguém, captei apenas trechos de conversa enquanto passava pelos corredores, nada que mereça meu tempo, apenas anotei o que foi dito pelo professor enquanto lia o texto de outra disciplina, aproveitei que a aula seguinte não havia começado, o professor aparentemente estava atrasado, não me dei ao luxo de esperar, ele provavelmente não viria, saí a toda velocidade para o outro campus, passei alguns minutos com minha namorada, não tinhamos como desperdiçar mais tempo, tinhamos compromissos, atravessei o campus até o ponto de ônibus, peguei o primeiro que passou, paguei a passagem mais cara, mas ganhei em tempo, saltei mais uma vez do ônibus em movimento, corri para atravessar o sinal que estava aberto, mas com poucos carros, faltavam apenas cinco segundos para fechar, é claro, sem contar com o tempo que iria perder em sinal amarelo, normalmente não se sabe o quanto cinco segundos podem fazer de diferença em uma vida, neste caso, descobri que fizeram toda a diferença, principalmente para o motorista que vinha em disparada, preocupado em aproveitar os cinco segundos para não perder um minuto de sinal vermelho.
Não fazia ideia do que faria em casa, não sabia por que corria, simplesmente tinha que ser rápido, era o que alguém lhe tinha dito, não podia desperdiçar um minuto sequer da sua vida, diziam que havia decidido competir com o relógio no momento em que nascera, certamente só fizera as pazes no momento de sua morte.
26/08/2009
Elogios
Quantas vezes ouvimos algumas delicadezas das pessoas desconhecidas que nos cercam no nosso dia a dia, pouquíssimos obrigados, algumas desculpas, às vezes um licença…
Estava esperando um ônibus, como sempre, quando uma senhora de cabelos brancos que vinha andando pela calçada, parou brevemente em minha frente, e disse um elogio que marcou o resto do meu dia, talvez, o resto da minha semana, afinal não é todo dia que se ouve isso de uma completa estranha!
“Que olhar bonito que você tem”
“É mesmo?”
“Sim!”
“Obrigado”
E assim ela me deixou no ponto, sozinho, com meu olhar bonito.
24/08/2009
Pay it Foward
Era mais uma quarta feira normal, mas a vida é uma caxinha de surpresas… Estava no ponto de ônibus em Amaralina, aquele próximo ao largo das baianas do acarajé, à esquerda do ponto alguns policiais militares revistando meninos de rua, como eu disse, tudo normal…
Logo alguém me aborda em um portunhol meio incompreensível, um sujeito de camisa e chapéus marrom escuro, cabelo encaracolado, rosto queimado pelo sol, barba rala, olhos castanhos claros e um colar daqueles de coco que é tão normalmente vendido na praia.
Depois de um breve minuto em que não entendia nada do que ele falava, pude finalmente compreender, ele queria “plata” para pegar um ônibus para o hotel onde estava hospedado, presumi que tinha sido assaltado, mas desconfiado, perguntei onde ficava o hotel, ele respondeu “Itapoã”, neste momento oportuno vinha na orla um “Itinga-Vida Nova”, resolvi ajudar ele, e então mandei ele subir no ônibus, dizendo que eu pagava a passagem dele, ele tinha 80 centavos, peguei-os para mim e paguei os R$ 4,30 da passagem.
Sentei em um dos bancos da frente, próximo aqueles reservados, ele sentou no banco logo atrás, não resisti ao meu impulso socializável e virei para trás, comecei a tentar conversar, o que não foi muito fácil, mas deu pra descobrir algumas coisas. Primeiro, ele havia sido largado para trás por cinco “amigos brasileiros” em um bar que deixaram a conta para ele pagar, segundo, ele era colombiano, e havia viajado pela América do Sul toda e agora chegava ao Brasil.
Intrigado como alguém que já viajou tanto não possuia dinheiro para o ônibus, perguntei a ele por que não tinha um cartão ou algo assim, disse ele que perdeu o cartão ainda na Colômbia e recebeu um de emergência da empresa, que não tem chip, então não funciona em caixas eletrônicos, e enrolou pra pegar um novo, depois de ter começado a viagem, preferiu não retornar à Colômbia para resolver isso, então a única forma de conseguir o dinheiro é no caixa dentro da agência, e nos Bancos que ele visitou na Amaralina/Pituba (por toda a manhã), não permitiram que ele o fizesse, disseram “Não fazemos esse tipo de operação neste banco”.
Estranho, mas não impossível… Ele disse que estava com uma passagem para Alemanha comprada para o dia seguinte, e que agora ia trabalhar e estudar arquitetura por pelo menos um ano lá. Resolvi descontrair e mudar de assunto, falei “tenho um irmão que está na França”, ele fez uma cara de tristeza e disse “No air France?”, eu “Não, na França, no país”, “há!” disse ele, “pensei que estava falando do acidente”. Ele perguntou o que eu estudo, respondi Ciências Sociais, espero que ele tenha entendido. Percebendo que não teria como conversar com ele em português sem uma relativa dificuldade, resolvi perguntar se ele falava outras linguas, descobri que falava um pouco de italiano, um pouco de francês, espanhol e inglês.
“Inglês, a lingua universal” – Começamos a conversar em inglês, o que facilitou a comunicação. Aprendi que ele estava faminto e morrendo de sede, eu havia pego uma paçoquita em casa, dei para ele, e expliquei que ele não devia comer se estava morrendo de sede. Ele entendeu que era como pasta de amendoin, achei que dava pra ficar por isso mesmo, quando ele provar ele descobre o gosto… Conversamos mais um pouco até que chegamos ao tópico: Dar esmolas. Disse a ele como fiquei com receio de dar-lhe dinheiro que fosse eventualmente utilizado para compra de bebidas ou drogas, e como é comum pessoas pedindo dinheiro nas ruas aqui no Brasil, para minha surpresa ele disse que sabia que era assim, e que ele mesmo não dá dinheiro pelas mesmas razões, mas ironicamente ele estava nessa situação agora, também lamentou não poder me recompensar pela minha ajuda, mas que ajudaria a outra pessoa que lhe pedir, ao ouvir algo tão familiar, perguntei se ele já havia assistido “a Corrente do Bem” (Pay it Foward), ele disse que sim, e que achou a ideia do filme muito boa.
Chegamos em Itapuã e me despedi do sujeito, que, espero, tenha encerrado suas aventuras em Salvador e partido para um futuro mais promissor na Alemanha, se é que qualquer coisa que ele me disse era realmente verdade…
18/02/2009
Crise de Crédito Global
A crise de crédito Global é um tema debatido constantemente em todos os recursos midiáticos, entre as principais causas a especulação imobiliária, os interesses acumulados nos empréstimos e por fim a distribuição de crédito indiscriminadamente.
Acredito que todos já estão cansados de discutir esse assunto, então gostaria de abordar outra crise de crédito.
Qual é a sua disponibilidade para dar crédito?
Por quantas pessoas o crédito lhe permite “por a mão no fogo”?
Para quantas pessoas você dá o crédito mesmo quando tudo vai mal?
Para quantas pessoas o crédito é suficiente para compartilhar um problema?
Para quantas pessoas o crédito é suficiente para permitir um perdão?
Para quantas pessoas o crédito é o suficiente para “quebrar um galho”?
Para quantas pessoas o crédito é suficiente para serem recebidas em seu lar?
Para quantas pessoas o crédito é suficiente para merecerem um bom dia?
Para quantas pessoas o crédito é suficiente para um olhar?
Será que há uma escassez de crédito geral? Será que não há como se receber de volta o que se confia aos outros? Será que é mesmo uma questão de valores? Que valores?
Não podemos confiar nos profissionais ou serviços, eles só querem dinheiro, não podemos confiar nos colegas da empresa, elas são competidores, não podemos confiar nas pessoas nas ruas, elas podem querer roubar-nos…
Como anda sua disponibilidade como credor?
22/12/2008
Mantra
Elixir de iluminação são os meus dias
Vivo para saborear o mundo, a vida
Cada instante é pathos, thauma
Estimo-me de corpo e alma
Conheço-me de sobejo
E tudo o que vejo
Incita-me curiosidade
Minha essência é espiritualidade!
Minha ação é ética, é valor
Sou meu oásis interior
Pois tudo o que sorvo é humorado
E de tudo o que existe, o significado
É música!
Vanessa Carvalho dos Santos 06/04/2007
Se Permita
Se permita chorar quando seu coração apertar
Se permita errar quando tudo parecer te sufocar e cobrar
Se permita ser feliz, independente do que os outros pensem ou queiram
Se permita sonhar, como se não houvesse problemas
Se permita liberdade, mesmo que alguém dependa de você
Se permita experimentar, o novo nem sempre é ruim
Se permita ouvir, a verdade não tem dono
Se permita viver, antes que a vida passe
André Sobral
Para Priscilla Cordolino Sobral.
03/11/2008
Abaixo das Ondas – Capítulo III – Uma Identidade
Estou em frente ao portão vermelho, retiro as chaves do bolso, há cinco delas presas a lembrancinha da locadora, uma tem que funcionar. Testo a primeira chave tentando não pensar em o quanto a noite está gelada e como o vento piora tudo, tento a segunda chave fingindo ignorar os apitos e assovios que de vez em quando soam cortando o silêncio e me causando arrepios. Arrisco a quarta chave tentando não me preocupar com o homem de casaco preto que vem do fim da rua, provavelmente um vigilante ou um morador… Agora só me faltam duas chaves restantes e algum tempo antes do homem chegar a mim.
Olho nervosamente para os lados enquanto tento a terceira chave. Com meu nervosismo acabo por prender ela na fechadura, tento puxar, mas está bem presa, é difícil fazer algo direito quando não se consegue deixar de espiar por cima dos ombros para se concentrar na tarefa. O homem acelera o passo, ele usa um gorro e um casaco preto, a semelhança com meu sonho é assustadoramente incrível, não posso evitar a sensação de pânico…
Começo a chutar freneticamente o portão enquanto puxo a chave, até que ela acaba soltando. Pegando a ultima chave e colocando na fechadura, ela entra perfeitamente, destranco o portão. Entro rapidamente e o fecho as minhas costas, viro de frente para o portão e vejo o homem passar direto, sem me encarar, sem arma, sem tiro.
Encosto na parede e escorrego até sentar no chão, olho para o céu desato a rir, não entendo como pude ser tão estúpida, ter ficado desesperada, em pânico por causa de um pesadelo besta… Depois de respirar fundo, me tranqüilizo, apóio no chão para ficar de pé. Olhando para os apartamentos percebo que são divididos em dois blocos de cinco separados em dois andares, como só um tinha luzes apagadas, presumo que devo estar morando ali, subo as escadas e sigo até o ultimo apartamento, lá encontro ao lado da porta três peixinhos coloridos que me parecem familiares, cada um tem uma expressão facial diferente, resolvo começar a testar qual das quatro chaves restantes abriria a porta.
Tive sorte, a porta se abre na segunda tentativa revelando uma sala pouco mobiliada que divide seu espaço com um balcão da cozinha, no final da sala um quarto e um banheiro. Ligo a luz do cômodo sem sucesso, na mesa várias contas acumuladas de meses atrás mostravam que provavelmente já a haviam cortado… Aparentemente ninguém esteve no apartamento por muito tempo, a poeira já está acumulada sobre os móveis, dando ao apartamento um ar de abandono. Caminho até a cozinha e abro a geladeira, está ocupada apenas por algumas latinhas de refrigerante, vou para o quarto, lá encontro uma cama de casal, uma escrivaninha desarrumada e papeis amassados jogados por todo quarto.
Na mesa, em meio à bagunça, está um punhado de moedas cobertas de barro, uma agenda com uma pagina marcada por uma carteira de identidade e várias folhas preenchidas com ideogramas orientais. Na agenda várias anotações de locais e horários estão na página marcada pelo documento, observando a identidade consigo ler a assinatura, que diz “Pandora Fernandes de Barros”, na foto uma menina nos seus 16 anos, que de certa forma é parecida comigo, seria realmente eu? “Pandora” que tipo de nome é esse? Essa é realmente minha casa? O que aconteceu comigo? Deitei na cama e encarei o teto, como é possível acontecer isso a alguém? Como não consigo lembrar de nada? O que eu fiz para merecer esse tipo de merda? Onde está a minha família para me ajudar? Será que ainda tenho uma? Essas perguntas vão ter de esperar, eu preciso mais do que tudo de repouso. Vou dormir do jeito que estou, não tenho paciência para tomar banho ou descobrir onde está meu guarda-roupa…
17/10/2008
Abaixo das Ondas – Capítulo II – Poucas Memórias
A luz se alterna com a escuridão a medida que passamos pelos postes, o vento frio que atravessa a janela entreaberta traz o cheiro característico das peixarias. Observando as ondas e apreciando a brisa que deixa meu nariz gelado e meus cabelos embaraçados, me ajeito no banco e fecho os olhos, preciso descansar.
A noite está gelada e com muita ventania, e aqui estou eu, na frente de um village, me aproximo de um portão vermelho, retiro do bolso uma única chave, e coloco-a na fechadura, girando-a ouço um estalido, empurro vagarosamente o portão até que este fique totalmente aberto, neste momento sinto um intenso arrepio ao ouvir passos as minhas costas, alguém vem correndo.
Olho para trás rapidamente, mesmo sentindo que não devia fazê-lo, um homem de gorro e casaco preto se aproxima, entro depressa e fecho o portão, mas ao olhar através deste, lá esta ele, com uma arma apontada para meu rosto… Então tudo começa a tremer e com o barulho estridente do tiro, sou arremessada para cima, caindo no banco de trás de um táxi. Um solavanco, um sonho.
- Malditos buracos! É só bater uma chuvinha e as ruas ficam assim… – Disse Ernesto ao notar que me acordara.
Ainda sonolenta balanço a cabeça positivamente, mostrando que estou concordando, mas minha mente já está em outro lugar. Fecho a janela em busca de silêncio para ouvir melhor meus pensamentos, do lado de fora passamos por um enorme prédio branco, mais a frente uma estranha escultura em forma de face. Talvez meu sonho seja uma distorção de alguma lembrança, um village em uma rua barrenta, algo comum nessas bandas, quantos teriam um portão vermelho?
- Já estamos chegando! Está vendo a placa da loja? – Perguntou ele.
- Sim! – Respondo, observando as ruas laterais – Entre a direita ali logo em frente – Indico com a mão.
- Que bom que a senhora já ta lembrada de onde mora.
Queria que estas palavras fossem verdade, estou simplesmente seguindo a intuição, indo em direção a praia. Ao entrar na rua, o táxi prossegue em linha reta enquanto eu observo os inúmeros villages, entre eles, localizado no fim da rua, o mesmo conjunto do meu sonho, em uma rua deserta e mal iluminada.
- É aqui! – Digo apontando o portão vermelho.
Ernesto vai diminuindo a velocidade, faz uma volta e estaciona em frente ao portão. Virando para mim diz:
- Estamos aqui dona, e a corrida custou trinta e quatro reais.
Olhando para ele indignada, grito:
- Como é?! Qual é o seu problema? Você é maluco? Você me atropelou e você me ofereceu carona, agora quer me roubar?
- Oh! Foi mal dona! É costume… Mas também a senhora não pode falar assim comigo, já fiz o que tinha de fazer, agora sai do meu táxi que tenho que trabalhar.
Assim que salto do carro Ernesto arranca bruscamente, levantando uma nuvem avermelhada e me deixando sozinha. Espero que esse seja o lugar certo…
12/10/2008
Da Boca Para Dentro
Muitas falam que são belas,
Poucas sentiram a beleza,
Muitas falam ser felizes,
Poucas vivem a felicidade,
Muitas falam saber dançar.
Poucas são a dança,
Muitas falam sobre amar,
Poucas vivem o amor,
Muitas falam da boca para fora,
Nosso amor é da boca para dentro.
André Sobral 10/10/2008
Para Vanessa Carvalho dos Santos.