Sempre me pego pensando no que somos, seres humanos… O que quer dizer isso? Somos seres superiores? Possuidores de um cérebro altamente desenvolvido? Caminhantes eretos? Criadores e utilizadores de ferramentas? Modificadores do ambiente, mais que qualquer outra espécie de ser vivo…
E como modificamos! Modificamos ao ponto de natureza significar algo distante, vendido em um slogan “proteja a natureza”, visível através das imagens dos documentários denominados “Vida Selvagem”. Selvagem, palavra que freqüentemente tem significado pejorativo: o que vem da selva, desconhecido, descontrolado, violento, bruto, grosseiro, arisco, inesperado, bravo impulsivo, perigoso… “Vida Selvagem” neste contexto provavelmente descreveria melhor a vida do homem urbano moderno do que a de um boi não domesticado.
Diariamente enormes extensões de florestas são derrubadas, planícies são alagadas, rios e mares poluídos, montanhas explodidas e perfuradas, condenando a extinção centenas de espécies: araras, micos, tartarugas, humanos, ursos, baleias, tigres e tantas outras já eliminadas antes mesmo de termos o conhecimento das suas existências.
O que diria uma vaca civilizada ao descobrir que sua vida é controlada do nascimento à morte em um ambiente fechado, onde lhe é injetado drogas e hormônios com a finalidade de que o leite dos seus filhos seja bebido por nós e sua carne devorada? Será que a vida de algum animal possui valor semelhante à de um ser humano? Que diferença faz isso quando os seres humanos morrem com descaso semelhante e tem suas vidas exploradas por todos os meios possíveis? Todos os dias, pessoas são assassinadas, violentadas, agredidas ou simplesmente abandonadas à morte pela fome ou doença em nossos “centros urbanos civilizados”.
É possível dar um valor à manifestação de estar vivo? O trabalho realizado pelo bombeiro que luta para apagar o fogo é menos valoroso que o trabalho realizado pelo engenheiro ou jogador de futebol? É possível negar a alimentação justa a um indivíduo devido a sua atividade “insignificante”? Será que não há comida o suficiente no mundo para alimentar à todos? É civilizado o apodrecimento de alimentos nas prateleiras das lojas em todo o mundo devido à falta de dinheiro para comprá-los?
Será o dinheiro expressão do nosso valor como seres humanos? Como podemos viver em função de papéis coloridos, pedaços cunhados de metal e créditos fictícios em computadores? Não são estes distribuídos arbitrária e especulativamente com pouca, se não, nenhuma ética? Em nome da nossa divindade “dinheiro”, ignoramos o sofrimento alheio, negligenciamos os herdeiros do nosso legado, desprezamos a ingenuidade de quem se incomoda com tais problemas insignificantes, observamos céticos todo e qualquer esforço para construção de um futuro mais “humano”.
Somos a única espécie que sistematicamente consome os “recursos” (denominação da poupança planetária) em uma velocidade maior do que é possível ao planeta repor, por que temos tanta pressa? Existe um lugar para se chegar? A cada dia quando corremos contra o relógio temos consciência de que não há aonde chegar nem horário a ser cumprido a não ser que assim desejemos? Engolimos os alimentos às pressas, nos privando de sentir os sabores, dormimos menos para não desperdiçar preciosas horas, quando temos todo tempo do mundo…
Eu sei que há muita coisa errada em nossas vidas, não é preciso ser um gênio para perceber. Não nos comprometemos, não cuidamos de nossos semelhantes, produzimos lixo a todo o momento, fruto do consumo em ritmo sempre crescente, consumimos venenos das mais diversas formas: radiação elétrica, magnética ou solar, agrotóxicos, conservantes, gorduras insolúveis, açúcar e sal em demasia, calorias ao invés de nutrientes. Enlatamos, ensacamos, engarrafamos e congelamos todos os alimentos possíveis, esterilizamos o consumo a ponto dele se tornar distante e impessoal, um ritual de satisfação do nosso ego e objetivo de nossas vidas.
Estranho tudo isso, penso o quanto nós humanos como espécie, como civilização, como indivíduos e como almas somos desunidos, o quanto o afeto é atrofiado em nossos corpos. Estranho que a maioria dos seres que habita este planeta não sabe ou simplesmente não se importa com o que temos feito. Estranho saber que existem pessoas que tem consciência e que lutam todos os dias para mudar a nossa triste condição, mas cujo resultado ainda é pequeno e desorganizado. Estranho não estarmos desesperados com a certeza de que este planeta não será de nenhum de nós no futuro e que ninguém ganhará com isso, independente de quanto dinheiro possuirmos, a importância do nosso trabalho ou o número de pessoas que nos conhecem. Estranho não ter orgulho de ser humano, estranho não me sentir superior ou privilegiado.